sábado, 28 de setembro de 2013

Homenagem ao meu pai Jadir Melgaço (Cavaquinho).

Infelizmente não tive a possibilidade de conviver de forma mais intensa e duradoura com meu pai. Tenho algumas lembranças esparsas porém claras. De quando chegava de viagens pelo Brasil e trazia coisas de outros estados, como da Bahia uma certa vez; ou de brincadeiras em torno da fornalha secando sua botina ao calor do fogo. A sua presença em mim foi muito mais resultado de lembranças de minha mãe ou de conhecidos que sempre acrescentavam informações que me ajudaram a construí-la.


(Fonte: Jornal o Liberal - Ano II - N 20 - Dores do Indaiá - 28 de outubro de 1994)

 (Jadir Melgaço)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Experiência Poética VII: Pluma ao Vento.


PLUMA AO VENTO
 Jairo Melgaço
       
No sopro do ar,
Pluma ao Vento...
Pluma, que não me sai do pensamento,     
Nem pense em solidão,
Não queira qualquer paixão.

Pelo sertão,
Talvez pro mar,
Quem sabe até meu coração,
Meu coração!
Pluma, Pluma ao Vento,
Pro mar, pro meu sertão,
Pluma, Pluma ao Vento,
Pluma, quem sabe minha emoção,
Minha emoção!
Pluma do meu sertão.

Vem minha Pluma,
Pluma ao Vento...
Com todo seu sentimento.

Traga de longe minha paixão,
Vento bandido,
Que solidão,
Sem minha Pluma estou perdido!

Você distante,
Que sofrimento,
Que sofrimento!
Pluma, Pluma ao Vento,    
Pro mar, pro meu sertão.               
Pluma, Pluma ao Vento,
Pluma, quem sabe meu coração,
Meu coração!

Pluma do meu sertão.

Prosopopeia XIII: Ecos históricos-civilizatórios-ocidentais da Rapsódia I da Odisseia de Homero.

Ecos históricos-civilizatórios-ocidentais da Rapsódia I da Odisseia de Homero.


Jean Baudrillard lembra Apollinaire: “Quando falo do tempo ele já não mais é” para realizar sua crítica a Foucault, que segundo ele, fala do poder, da sexualidade, etc. com uma inteligência definitiva, ao que ele conclui que se ele pode falar assim é porque “tudo isso está desde já ultrapassado”. Cabe então a pergunta: pode-se estender tal preceito para tudo o mais, como por exemplo, às questões filosóficas? Afirmar o que seja a respeito do que seja de forma definitiva é porque tal coisa encontra-se ultrapassada? Com uma resposta afirmativa pode-se concluir então que nada pode ser dito do que já não esteja fora de contexto, não exista mais. Ainda tem sentido se preocupar com a sentença de Anaximandro? Com a questão do Ser e do Vir-a-Ser? E tantas outras possibilidades filosóficas que, uma vez enumeradas podem até impressionar pela extensividade. Cada um se envereda por um longo caminho e depois de muito andar e pensar como que se perde dentro de si mesmo. Com a filosofia da linguagem acontece de forma análoga o oposto: diversos pensadores que se perdem no seu labirinto. São inúmeras as encruzilhadas e caminhos alternativos. Numa coisa acredito que haja consenso: quem quer ir para frente deve voltar para trás. Principalmente quando a direção é ainda incerta. Começar pelo início quem sabe permita vislumbrar o caminho novo, que talvez possa ser o seu idiossincrático caminho. Homero na rapsódia I da Odisseia narra a fala, aos imortais, do pai dos homens e dos deuses: Zeus Olímpico: “Ah!, de que maneira os mortais censuram os deuses! A dar-lhes ouvidos, de nós provém todos os males, quando afinal, por sua insensatez, e contra vontade do destino, são eles os autores de suas desgraças.” Podemos tomar como exemplo o prudente Telêmaco que se dirigindo a Atena, a deusa de olhos brilhantes, ao comentar sobre o destino de seu pai Ulisses diz: “(...) os deuses que nos querem mal” expressa a ideia de que determinados deuses nos querem bem e outros nos querem mal. Diferente da nossa maneira monoteísta que gerou tanta discussão sobre a questão de como pode o nosso Deus que é bom deixar tantos males acontecerem aqui no nosso  humilde planeta Terra. A ideia de que os deuses são culpados pelos nossos atos considerados bons ou não: os deuses é que eram os culpados por todos os nossos atos principalmente os considerados como errados e inaceitáveis, oriundos de nossas fraquezas, ou seja, nossas fraquezas são oriundas de uma dinastia de deuses, de determinados imortais.  Nietzsche ressaltou a diferença que existe entre atribuir aos deuses nossos atos considerados sem virtude, sem fé como algo mais aceitável, e aceitar ou acreditar num único deus justiceiro e castrador, juiz de todos os nossos atos. A primeira fala de Atena, a deusa de olhos brilhantes nos remete à origem da norma, da lei. Por mais que isso tenha demorado a se concretizar a ideia já estava ali. Na medida em que a deusa considera justo o castigo dado a Egisto por ter desposado a mulher do Atrida que assassinou em seguida, desejando que “morra como ele todo aquele que praticar crimes da mesma espécie!” como que inaugura uma regra, uma norma, uma lei. Para tal ato tal procedimento: para um ato reprovável um castigo. Uma deusa que se preocupa em normatizar posturas para os deuses diante de atos dos mortais. Onde foi essa ideia frutificar? Para o bem ou para o mal, ou ainda melhor para além do bem e do mal, como queria Nietzsche? A ideia do deus castrador, juiz avaliador dos atos humanos, e sentenciador de males diversos como castigos para os nossos atos considerados censuráveis, posteriormente os nossos pecados. Indo ainda mais longe: talvez nossos pecados mortais. A valorização dos bons modos, tal como “boca fechada não entra mosquito”, pode ser encontrada mais ou menos nesse momento da narração, quando Zeus, amontoador de nuvens, filho de Cronos, majestade suprema responde à sua filha Atena, a deusa de olhos brilhantes: “minha filha, que palavra (que seria preferível reter) te escapou da barreira dos dentes?”. Quem fala de mais dá bom dia aos cavalos. Fala pelos cotovelos e perde a credibilidade torna-se o mentiroso. Da mesma forma pode-se inferir um modelo de velhice aceitável e apetecível no retrucar do prudente Telêmaco filho de Ulisses: “feliz mortal que chegasse à velhice na plena posse de seus bens.” Penso que posse aqui não significa registro de imóveis, mas muito mais as condições fisiológicas e psicológicas de estar de posse do que é seu por direito. Tanto quanto dizem respeito às relações humanas quanto aos bens materiais necessários ao bem viver. Interessa a ideia de Zeus, filho de Cronos, dominador supremo como produtor de rumores que disseminam as notícias entre os homens, na medida em que seja permitida uma relação com a ideia de Deus se revelando aos homens, como no velho testamento. A diferença está em que para os deuses significava influir, dando conselhos, mudando o curso da vida dos mortais, fazendo parte de suas vidas, estabelecendo, com eles, dialogo o tempo todo. A revelação de Deus para com seus escolhidos como Abraão, Moises era ora de forma direta ora de forma indireta, através de nuvens, anjos e outras formas de materialização da sua voz, com a preocupação primeira de se fazer acreditar enquanto Deus que existe para em seguida se fazer ouvir como Deus que dirige o destino dos mortais humanos. Parece que provém dos deuses também o chamado para a responsabilidade do adulto em relação à criança; a passagem, a iniciação que, sob diversas formas, está presente nas mais diversas sociedades independentemente se consideradas como primitivas ou como sociedades complexas, quando Atena, a deusa de olhos brilhantes aconselha a Telêmaco, filho do divino Odisseu: “Põe de lado os divertimentos infantis, que já não tens idade para isso (...) sê corajoso, para que teus descendentes mais remotos te louvem”. Em um dos diálogos de Telêmaco com os pretendentes de sua sensata mãe Penélope, filha de Icário ocorre a ideia de valorizar o poder que implicaria necessariamente em fartura e honra:  “Reinar não é um mal; imediatamente a casa do rei se torna opulenta e ele passa a ser mais honrado.” Quantos desdobramentos históricos labirínticos surgiram dessa ideia raiz?  Basta citar todas as situações onde influíram e influem as monarquias, teorias e mais teorias sobre o poder, por exemplo, Foucault, o discurso da servidão voluntaria de Etienne de La Boétie, e tantas outras situações e exemplos, ad infinitum! Para finalizar: alguma relação entre ajoelhar-se em determinados momentos de rezas e cultos religiosos e a expressão: “esse porvir repousa sobre os joelhos dos deuses”? Em fim, que importância tem toda esta lorota? Nenhuma, pois não passa de mais uma prosopopeia!


sexta-feira, 29 de março de 2013

William Butler Yeats: Homenagem a um dos maiores poetas irlandeses.


William Butler Yeats

Homenagem a um dos maiores poetas irlandeses. Yeats nasceu em Dublin em 13 de Junho de 1865, e faleceu em 28 de Janeiro de 1939. Foi um poeta e dramaturgo. Atuou ativamente no Renascimento Literário Irlandês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1923.



Conterrâneo de James Joyce e Oscar Wilde, a poesia de W. B. Yeats foi influenciada pelo folclore irlandês e, da mesma forma, pelo misticismo.

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COM O TEMPO A SABEDORIA

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é uma só;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.





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QUANDO FORES VELHA

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

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A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.




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AEDH DESEJA OS TECIDOS DOS CÉUS

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.



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MORTE

Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.
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Créditos:
Tradução:    Péricles Eugênio da Silva Ramos
http://apoesiadeyeats.blogspot.com.br/          
http://humanasblog.wordpress.com/2009/07/09/yeats-um-poeta-irlandes-e-universal/






sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Prosopopeia XII




A crítica de Nietzsche à crítica de Kant segundo Deleuze (Nietzche e a Filosofia) nos remete a uma das besteiras pretensamente filosófica que o bípede sem penas de unhas largas que pensa, fala e escreve tudo que o papel ou a tela do notebook aceita expressou, sob o título prosopopeia. Seguindo a exposição de Deleuze, e se ele estiver certo no que diz, o que parece muito provável, realmente temos que aceitar que para um futuro possível florescimento filosófico, necessário se faz partir não de Kant, mas de Nietzsche. Se não vejamos: “(...) Nietzsche em A Genealogia da Moral, quis refazer a Crítica da Razão Pura. (...) A crítica em Kant não soube descobrir a instância realmente ativa, capaz de conduzi-la. Esgota-se em compromissos: nunca nos faz superar as forças reativas que se exprimem no homem, na consciência de si, na razão, na moral, na religião. (...)  Parece que Kant confundiu a positividade da crítica com um humilde reconhecimento dos direito do criticado. Nunca se viu crítica total mais conciliatória, nem crítico mais respeitoso. (...) a crítica de Kant não tem outro objeto a não ser justificar, ela começa por acreditar no que ela critica. (...) Nietzsche, nesse domínio tanto quanto nos outros, pensa ter encontrado no que chama seu ‘perspectivismo’ o único princípio possível de uma crítica total. Não há fato nem fenômeno moral, mas sim uma interpretação moral dos fenômenos (VP, II, 550). Não há ilusões do conhecimento, mas o próprio conhecimento é uma ilusão: o conhecimento é um erro, pior ainda, uma falsificação. (...) Kant concluiu que a crítica deveria ser uma crítica da razão pela própria razão. Não é essa a contradição Kantiana? Fazer da razão ao mesmo tempo o tribunal e o acusado, constituí-la como juiz e parte, julgadora e julgada. (...) Quem se mantém atrás da razão, dentro da própria razão? (...) Com o nome de razão prática ‘Kant inventou uma razão expressamente para os casos em que não se tem necessidade de preocupar-se com a razão, isto é, quando é a necessidade do coração, a moral, o dever que falam (VP, I).’ (...) No irracionalismo não se trata de algo que não seja pensamento, que não seja pensar. O que é contraposto à razão é o próprio pensamento; o que é contraposto ao ser racional é o próprio pensador. (...) O legislador de Kant é um juiz de tribunal, um juiz de paz que fiscaliza ao mesmo tempo a distribuição dos domínios e a repartição dos valores estabelecidos. (...) Na crítica não se trata de justificar, mas sim de sentir de outro modo: uma nova sensibilidade.” Por enquanto é Nietzsche, daqui a pouco pode ser outro... 

Prosopopeia XI



Qual foi a ideia que Heidegger não quis reconhecer em Nietszche (Deleuze)? Para Nietzsche nunca existiu o Ser. Ele negou o Ser. Junto com Heráclito passou a acreditar apenas no vir-a-ser. O movimento eterno do espaço-tempo no seu eterno retorno como conceito base de explicação da realidade. Nada é, nem está, e nunca esteve parado, estático. Tudo é fluxo.  Movimento (teleológico?) na direção do eterno retorno do mesmo. Isto nos remete às possíveis respostas teoricamente aceitas para a pergunta sobre o início do Universo, da realidade, se existiu algo antes do Big Bang? Uma delas defende a ideia do eterno retorno do mesmo, na medida em que explica o Universo no tempo, como uma eterna expansão-contração cíclica de toda sua massa. Um Big Bang seguido de uma expansão do espaço-tempo até o seu limite, o limiar da expansão, que se transforma em retração, fazendo todo o Universo se reduzir novamente à bolinha de tênis, que explodira anteriormente, e que novamente explodirá ao chegar ao antípoda daquele mesmo limiar da expansão, que agora atinge o limiar da contração, que gera a energia necessária para a explosão, começando tudo de novo. Partindo da opção por considerar esses argumentos válidos, e concordando com o fato de que não existe Ser, que tal coisa não passa de uma ideia que não se realiza enquanto realidade empírica, uma vez que não é possível jamais fazer do Ser um mapa, por que sua paisagem não existe, não existe uma Paisagem do Ser, porque não existe Ser, como fica Parmênides neste contexto? Para que o Ser exista é preciso que a Natureza resolva congelar seu fluxo vital, ou seja, seu ciclo de vida, sua existência. Seria como se a Natureza resolvesse ser o que nunca foi, como ser um quadro no rolo de filmagem de uma história com duração de no mínimo alguns muitos bilhões de anos. Não dá para parar o filme para o Ser ser. Tornar-se Ser. Porque o conceito de Ser para se adequar à coisa que designa, que dá nome ou, por outro lado, substitui no raciocínio, na utilização da razão, para que seja possível pensar o Ser, primeiro precisa que a coisa de fato exista. Como não existe Ser não existe filosofia do ser, ontologia? Ou a ontologia teria como sua preocupação primeira o Sendo? Como ficaria, então, a questão da filosofia de Heidegger ser um dos pilares da ética contemporânea? Entretanto, a quem pode interessar tal questão?