quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Experiência poética III: Terra poésie sont...


Terra: poésie sont...

Jairo Melgaço

Sont sempre alguma coisa.
Um caetaneante, nadando contra a maré,
Repetindo teu amor lunático,
Neste mundo tão ao
Gosto e ao sabor
Do sopro telúrico vento lácteo.

Ou sont outra coisa qualquer.
Sont ser sal da vida,
Guia do amor bolero,
Do que não passará
Ao Poeta.

Sont ritmo alucinante
Do desvelar do ente,
Ser...
Música que dança cósmica,
No espaço tempo do Ser,
Agora do ente
Sendo...

Sont paisagem interna:
Que geográfica visão
Do Tao caminho do meu vir a ser.
Por ares vai a tristeza
Do esperar pelo regresso,
Da beleza leve,
Que havia deixado de lado o abraço
Do dentro fora.

Geossistema biostásico
Climax integrativo,
Gaia.
Linda azul de se ver,
Sentir,
Pulsar,
Sendo...
Uma coisa só.

Experiência poética II: Quadros de Infância.


Quadros de Infância
Jairo Melgaço

O Mundo de repente aberto ao meu futuro,
No fim das águas de verão, 
Quando o Brasil logo logo, na Suécia, campeão;
Dos braços maternos do aconchego, 
Que da mesma forma nunca mais será,
Às Dores do Indaiá.

Largo espaço mineiro ao meu comando.
Braços fortes vegetais que não se deixam estalar,
Das jabuticabeiras e mangueiras, 
Ao peso dos corpos voando,
No quintal brincando, 
Daqui prá li e dali prá cá.

O gado de ossos na lida; 
De palitos de picolé o curral;
O caranguejo pescado na bolinha de cera,
Bem debaixo dos pés;
A água do balde preso no barbante, 
Ali bem perto do bananal,
Compõem no tempo, 
O espaço pleno da minha primeira presença total.

Torrões e flechas ao seu destino voando,
No faroeste das guerras.
Nas avermelhadas terras do barranco afora, 
surf no lombo das bananeiras.
Bem perto dos quadros
Com molduras cintilantes da abóboda celeste,
Das roupas sob o sol, 
Coloridas e brilhantes frutos do pincel das lavadeiras.

Momentos com significados de vida especial,
Iguais a estes só mesmo tendo de presente
Um privilégio natal,
Quisera eu poder doar-te 
Para cada uma das crianças em geral,
E seria diferente esse mundo 
Bem menos cheio de mal. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Experiência Poética: Para você que eu amo!


Para você que eu amo!

Jairo Melgaço

Para você que eu amo quero vida,
Que possa ser vivida com o mais intenso brilho
Da mais brilhante estrela do azul celeste firmamento.
Que possa ser vivida em todos os interstícios do mundo,
Do seu e meu corpo que são para sempre nossos;
E do negro azul verde água das profundezas marinhas,
Onde a clara e brilhante luz do nosso amor ofusque todas as trevas
Dessas regiões tão abissais,
Como raia o sol por entre as janelas das nuvens do céu.

Para você que eu amo quero vida,
Sempre vivida com a maior intensidade de vida,
Que possa ser vivida respirando o ar perfumado e inebriante das flores do cerrado,
Que desabrocham por entre a relva úmida ou rupestre,
Nos arbustos e árvores retorcidas de cascas grossas e ásperas,
Com suas raízes profundas, que sugam a seiva do eterno amor,
Que ofereço para sempre a você que eu amo.

Para você que eu amo quero o amor livre e desprendido,
Global amor imune aos grilhões que tudo inibe,
Aprisiona e impede o viver do verdadeiro e completo livre amor,
Da autêntica e da plena vida,
Que só pode ser vivida pelo meu amor,
Que é você que eu amo,
E quero amar para sempre todas as manhãs de cada dia,
Todos os crepúsculos de cada dia,
No meio de cada dia,
Dormindo e acordado amando eternamente você que eu amo.

Para você que eu amo desejo não o seu nem o meu amor,
Mas o amor nosso de cada nossa possível respiração,
Do nosso constante permanente mesmo nosso ar,
Do nosso entorno único mundo nosso de nossas eternas vidas.
Desejo o que a vida nos reserva para sempre,
Em todos os lugares deste e de outros nossos mundos do infinito firmamento,
Penetrando por todos os poros e espaços livres 
E vazios de toda essa realidade,
E de todo o meu e seu corpo amoroso,
De todo seu que é meu pensamento e emoção,
Indo aonde vão todas as coisas que visitam
As profundas fossas telúricas e abissais,
Que somente lhe pertencem, e que são só minhas e nossas,
Enquanto você é minha e eu sou seu.
É o desejo do meu e seu desejo nosso,
Para você que eu amo,
Que é você que me ama!


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Causo verídico do sertão de Minas Gerais: uma graça alcançada com Padre Libério.



O dia em que, em minha opinião, alcancei uma graça com Pe. Libério.

A melhor festa no Quartel São João é uma vez por ano: a festa junina. Vale mesmo a pena ir até lá. Mesmo que o acesso não seja lá essas coisas. A estrada de terra batida é longa e estreita. Em muitos trechos, só tem espaço para um de cada vez. Já passei por lá em dia de chuva e aí a coisa se complica mais. Tai uma boa oportunidade para os políticos da região trabalharem para que seja possível financiar o asfaltamento por aquelas bandas do sertão de Minas Gerais. Por outro lado e pensando bem, talvez essa não seja uma boa ideia. Pode-se perder o lado natural da coisa em si.  Mas o assunto aqui é o Pe Libério que tantos devotos tem por estas bandas de Leandro Ferreira, Bom Despacho, Martinho Campos e por aí vai... Uma condição que podemos indicar para que alguém se torne devoto de um santo é a de que se tenha fé nele, e que se acredite que ele vai ajudar, principalmente nas horas em que mais se necessite de receber uma graça. Estas são decorrentes da vida de cada devoto. Por isto os pedidos variam em função do contexto vivido, que gera a necessidade para o apelo ao santo. No meu caso aconteceu mais ou menos assim: Fui para a festa junina no Quartel São João num dia chuvoso levando um violão atrás do banco da pampa. Chegando lá pude ir até a grande fogueira, que já ardia há tempos. A praça estava cheia de pessoas nas diversas barracas e bares, comendo, bebendo, conversando, olhando e procurando um olhar, ou algum conhecido, circulando daqui e dali, tentando tirar o melhor proveito daquela situação toda. Para encurtar a conversa, encontrei-me com uma amiga cujo pai gostava de tocar sanfona. Fui até a pampa buscar o violão, e já retornei dando uns retoques na sua afinação. No bar, em pé perto do balcão, tocamos e cantamos com os que estavam por ali, e que compunham um coro. Eu diria que se fosse pago o show daria prejuízo. Mas tudo é festa e com um pouquinho de álcool na cuca perde-se um pouco do senso de ridículo. Mas tudo vale, pois é festa, aliás, segundo Sérgio Lima no livro “O corpo significa” a festa instaura a transgressão, neste caso, o respeito com os ouvidos alheios. Lá pelas quatro da manhã o sanfoneiro convida para uma galinhada na sua propriedade ali perto. Preparando para irmos até lá vou buscar a pampa e descubro que não sei onde foi parar a sua chave. Esta era uma peça única e sem chaveiro.  Da parte do plástico preto utilizado para apoio dos dedos tinha sobrado apenas uma pequena parte na ponta de fora da chave. Sendo assim, praticamente a chave era uma pequena cruz de metal. Onde teria perdido a tal da chave? Voltei para o bar e já estava fechado. Levou a breca. Nada de galinhada na casa do sanfoneiro. Fomos para outro bar e começamos a tocar violão e agora os ouvidos já não sofreram tanto. Parece que o ensaio tinha sido proveitoso. Por fim, já bem cansado peguei um tamborete de madeira e couro de boi e, escorado na parede, resolvi pregar um pouco os olhos. Preocupado com o sumiço da chave pensava em como voltar para Dores do Indaiá sem a pampa. Onde poderia conseguir um chaveiro em fim de uma festa como aquela. Aí me lembrei do Pe. Libério, e das graças que as pessoas contavam ter alcançado com ele, principalmente com coisas perdidas. “Ô Pe Libério me ajuda a encontrar essa chave pelo amor de Deus”. Fiz o pedido e rezei uma ave Maria e um Pai Nosso e cochilei. Lembro que sonhei, mas não com o quê? De repente acordo e resolvo ir até ao bar para ver se estava aberto para procurar a chave, que eu teria deixado cair lá perto do balcão da cantoria com o violão e a sanfona.  Estava indo ao bar, quando não sei por que resolvi ir até a pampa. Fui olhando para o chão da rua calcada de pedras, coberta com muito barro, poças d’água, restos de cigarro, um ou outro lixo jogado aqui e ali, com aquela insistente chuvinha de molhar bobo. De repente me deparo com a chave no meio do barro há uns três metros antes de chegar até a pampa. Aí fica a questão: coincidência, acaso ou uma graça alcançada? Mas porque não fui até o bar como pensei quando me levantei do tamborete? Por que fui direto até a chave sem mudar de direção, nem passar por um lado da rua onde não poderia vê-la? Eu estava meio sonolento, admito, porém lembro com certeza que me levantei e fui até a chave de forma direta, como se alguém ou alguma coisa me guiasse. Na hora eu não tive dúvidas na minha intuição explicativa: foi mesmo uma graça alcançada com a fé no Pe Libério, principalmente pelo fato de ter certeza que não pensei o pensamento que justificaria a ordem do cérebro para a mudança de planos na busca pela chave: de não mais ir ao bar, mas virar a direita, e ir de olhos fixos no caminho percorrido na rua em direção à pampa. Eu não pensei que a chave pudesse estar perto da pampa. Estava com a certeza de que ela tinha caído perto do balcão, já que eu tinha o costume de colocá-la no bolso de moedas da calça jeans. O mais provável então era que quando peguei algumas moedas para pagar a conta ela tinha caído e eu não percebera. Em parte também porque em casa muitas vezes eu pedi ao Pe Libério para me ajudar a encontrar coisas banais do dia a dia e sempre deu certo: era pedir e achar bem rápido. Passava um tempo procurando e não achava. Pedia e achava em seguida. Acaso? Pode ser, mas uma coisa tem que ser considerada: são muitos acasos e coincidências recorrentes. Por isso não tive dúvidas. Com a chave na mão contei o ocorrido para minha amiga filha do sanfoneiro, e ela achou aquilo muito interessante, ao ponto de se tornar devota de Pe Libério. E não é que aconteceu (mais uma coincidência, acaso ou graça?) dela me procurar algum tempo depois para contar que havia feito um pedido ao Pe Libério, e que ele tinha prontamente lhe atendido? Estava precisando de uma ajuda que logo chegou na figura de seu tio, que simplesmente chegou na casa dela perguntando se ela estaria precisando de alguma ajuda. Qual a sua opinião? Acaso ou uma graça alcançada? Eu tendo por não ter esta dúvida. Que tal seguir o exemplo de minha amiga? Torne-se devoto ou devota de Pe Libério. Reze para ele e quando precisar peça. Quem sabe ele não atende seu pedido também.





quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Amor? Existe verdadeiramente? Como saber que o que sentimos é realmente amor? Como podemos ter esta certeza?


Em Krishnamurti podemos encontrar uma orientação nesse sentido. Jiddu Krishnamurti nasceu em maio de 1895, na Índia, e morreu em fevereiro de 1986, aos 90 anos de idade, na Califórnia. Em 1929 surpreendeu cerca de dois mil seguidores quando dissolveu a sua Ordem, que existia há 18 anos: “Eu sustento que a verdade é uma terra não trilhada e que não a alcançareis por nenhum caminho, nenhuma religião, nenhuma seita... não quero seguidores. Digo-o a sério...” (...) “O que me interessa é, tão só, tornar os homens absoluta e incondicionalmente livres.”





sábado, 11 de agosto de 2012

Contra o racismo e, ao mesmo tempo, uma homenagem ao centenário de Jorge Amado: quantos problemas e injustiças não seriam evitadas se essas ideias fossem de todos nós brasileiros??!!


Foto René Burri - Magnum, Paris



Créditos: Correio da Unesco jul / Ago 1986.

O imposto do fogão a lenha: causo verídico do sertão de Minas Gerais.


Numa agradável manhã de domingo eu meus dois irmãos e minha mãe deixamos o rancho, e pegamos a estrada a pé, para os lados do campo de futebol do causo do macarrão. Minha mãe tinha essa mania que passou a ser nossa. Foram inúmeras as vezes que fomos almoçar na beira do ribeirão próximo à nossa cidade natal. Não levávamos nenhum apetrecho de pescaria, pois nesta época minha mãe ainda não tinha a pesca como seu principal hobby. Fomos por uma estrada estreita e toda colorida. Parecia como uma daquelas estradas de desenho animado ou de um conto de fadas. As cores iam se sucedendo tanto no leito principal como nos barrancos, de ambos os lados. Ninguém consegue resistir e acaba sujando as mãos com aquelas argilas multicores. Estávamos todos muito bem, muito alegres pelo passeio e a possibilidade de novas descobertas, naquela manhã agradável e, também por estarmos em família, mesmo que incompleta. Aos poucos a estrada foi tornando-se uma descida sem fim. Nada de plano nem subida. Só uma descida que ficava também cada vez mais abrupta. Era a primeira vez que passávamos por ali e ficávamos cada vez mais curiosos sobre onde daria aquela descida interminável. Um de nós observou que para descer todo santo ajuda, sendo que o problema seria na volta. Mesmo com este inconveniente continuamos a aproveitar a caminhada tranquila e agradável, sem pressa e sem nenhum conflito ou problema psico ou físico.  Demorou mas o final da estradinha chegou e junto com ele uma “paisagem” inusitada. Uma pequenina ilha de um pequeno ribeirão, quase toda ocupada com uma casa e seu quintal. Com nossa aproximação os cachorros começaram a latir cada vez mais alto e intenso, como se quisessem nos intimidar, para que não viéssemos incomodar naquele lugar tão calmo, onde a sonoridade era quase completamente natural. Fomos recebidos como parentes que há muito não davam o ar da graça. Na casa apenas um casal de idosos como moradores. Enquanto minha mãe e a dona da casa conversavam na cozinha, eu meus irmãos tomávamos uma garapa feita na hora pelo dono da casa, de uma cana caiana fresquinha. Minha barriga chegou a doer, mas fiquei com a sede saciada por um bom tempo. Exploramos o quintal muito bem cuidado, com diversas árvores frutíferas, plantas medicinais, além de uma horta muito bem cuidada. Tinha de tudo praticamente. Havia uma necessidade vital de ser o mais autossuficiente possível, e isto faziam com maestria. Como é de conhecimento corrente as únicas coisas que não são passíveis de serem produzidas no sertão é o sal e o querosene. Depois sentamos em bancos de madeira e couro de boi na cozinha, onde a conversa corria animada, enquanto o dono da casa preparava sossegado um cigarro de palha, sentado nos próprios calcanhares, próximo da porta da cozinha. O café tinha acabado de passar pelo coador de pano, que soltava fumaça em cima do fogão de lenha, cuidadosamente coberto com barro branquinho. Um bolo de fubá estava esperando tranquilo sobre a mesa de madeira rústica com um forro de crochê. Apesar da barriga ainda cheia de garapa não deu para resistir bolo de fubá e café quentinhos. A dona da casa já tinha praticamente contado toda sua história de vida. Tivera dez filhos, dois não vingaram, os outros oito estavam casados e vivendo em diversos lugares de Minas Gerais, tinha vários netos e bisnetos. Todos eles viviam suas vidas à distância e visitas eram muito raras. Praticamente não saía daquele mundinho tão aconchegante e tranquilo. Seu marido ia de vez em quando até a rua buscar alguma coisa na venda ou tratar de algum negócio e de dinheiro. De resto nada mais provocava uma saída dali. Com esta situação de anos vivendo isolada do resto do mundo alguma coisa aconteceu na sua percepção e compreensão das coisas. No meio da conversa de vez em quando minha mãe se espantava com a conversa dela. Quando se referia ao marido sempre arrematava com a expressão: “ele venceu”. Depois minha mãe comentou dizendo que a maior parte do que ela falava não tinha pé nem cabeça. Por fim ela resolveu contar sobre o fogão de lenha depois que minha mãe comentou sobre o capricho dela com a casa, com a cozinha e o fogão tão bem cuidado e limpo: “pois é, o imposto tava muito caro então eu tive que barrear ele todo.” Minha mãe não entendeu e ela explicou: “Por baixo do barro é tudo cimentado com vermeião mas eu tive que passá barro nele todo, porque se não nóis ia que pagá imposto.” E arrematou com sua expressão característica: “Ele venceu!”