sexta-feira, 1 de dezembro de 2017


Homeopatia Cultural

"Meu tio Zico do Bico"

Frequentar uma universidade e uma faculdade tem uma diferença fundamental: o ambiente da universidade exala cultura para todos os lados, enquanto que na faculdade, com raras exceções, o ambiente é a sala de aula. Pensando em tentar amenizar tal deficiência eu incluía nos trabalhos dos meus aprendentes a HOMEOPATIA CULTURAL, OU SEJA, CULTURA EM PEQUENAS DOSES. Infelizmente, o trabalho se restringia a abordar algumas citações que eu considerava capazes de, em sala de aula, trazer alguma contribuição neste sentido. Falas de autores renomados, considerados sábios, filósofos, cientistas. Alguns exemplos: "Tudo é Um" Heráclito" esta foi sem dúvida a que fez mais sucesso. “Mantenha a fidelidade e a sinceridade como princípios básicos” (Confúcio); “Aja como se o que você faz fizesse diferença” (William James); “Quando alguém me atira um pêssego, devolvo uma ameixa.” (Mozi); “A vida irrefletida não vale a pena ser vivida.” (Sócrates); “Feliz aquele que superou o seu ego.” (Sidarta Gautama ou Buda). "Como o Homem tem necessidade de ILUSÕES para viver." Interessante como quando você tem algo importante e profundo para dizer você não precisa nem registrar em linguagem escrita. Exemplos? Sócrates, Buda e Jesus Cristo não precisaram registrar nenhuma palavra escrita para mudar o mundo de forma profunda e definitiva.  

Afinal por que uma pessoa cria um Blog? A lista de motivos pode ser interminável. Mas alguns são mais ou menos comuns. Egocentrismo com certeza é um deles. Temos todos que pedir desculpas para Sidarta não é mesmo? Somos todos egocêntricos. Felizmente em graus diferenciados. Tento seguir seu conselho, mas é muito difícil. Temos que andar na corda bamba entre controlar seu egocentrismo e certo grau de niilismo (Nietzsche). Caso eu anule demais o meu chamado “eu” posso incorrer na perda de vontade de viver. Aí a coisa se complica não é mesmo? Claro que esse nunca foi o objetivo de Sidarta, mas para nós ocidentais tal risco não deixa de estar por aí a nos espreitar. O “iluminado” ou Sidarta ou Buda tinha como questão principal o objetivo da vida, o que o levou a propor uma solução para o sofrimento humano, que considerou universal: o caminho do meio. As frustrações de desejos não realizados como causa dos sofrimentos desaparecem se deixamos de desejar. Bom, mas assim acaba a vida, pois esta não passa de uma sequência de desejos que vamos perseguindo durante todo tempo que respiramos. O próximo passo é entender que o nosso "eu" é a fonte de origem de todos os nossos desejos. Para Sidarta o eu não passa de uma ilusão que gera sofrimento na medida em que não reconhecemos que somos transitórios e sem substância e, principalmente que todo eu não passa de uma pequena parte do não-eu. Não se trata de parar de viver, mas viver sem esse apego a algo que certamente não durará muito. No fim há na verdade uma valorização de uma vida que deixa de ser escrava de uma ideia sem fundamento e substância: o nosso eu de cada dia. Podemos então pensar que podemos ter um blog e não utilizá-lo apenas para satisfazer os desejos de nosso ego. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Peladão

O Peladão

Por falar em farmácia... Pouco tempo depois do tombo do cavalo ou talvez antes – não me lembro bem, minha Mãe chamou um taxi para levar meu irmão Jarbas Melgaço – o Jarbinhas, que estava com febre, até ao Farmacêutico da Farmácia Fiúza, num dia bem chuvoso.
Quando o taxi estava para sair fiquei com vontade de ir também e comecei a falar para minha Mãe, de forma insistente e puxando a barra do seu vestido. Ela disse para que eu ficasse com minha irmã Jaciára Melgaço – a Iara, mas de tanto insistir minha Mãe acabou concordando. Eu estava somente com uma camisetinha que ia até o meio de minha barriguinha – de bagre, mas não pensei duas vezes e fui entrando no banco de trás do carro. O taxi estacionou na porta da farmácia e minha Mãe me perguntou se eu não ia descer.
Não, não vou ficar aqui mesmo...
A chuva apesar de mais fraca continuava. O motorista e eu calados por alguns momentos. Eu não parava de olhar para dentro da Farmácia para acompanhar o que estava acontecendo. De repente o motorista se virou e disse:
"Ocê num vai descer?"
Não, não...  Eu não posso descer, pois se não vou sujar de barro o carro limpinho do Senhor.
O motorista esboçou um riso nos lábios, balançou a cabeça para lá e para cá virando para frente de novo. 

O tombo (Infância)

O Tombo

(Tatá)

Meu Pai, Jadir Melgaço “o Capitão” tinha uma barbearia com porta para a rua Dr. José Argemiro de Moura, na antiga casa de esquina da Praça Abaeté, que minha mãe, Maria Albanita Melgaço “a Titita”, herdou de minha Avó materna, Maria da Conceição Silva.  Nessa época meu Pai estava exercendo outra atividade que não me lembro qual, provavelmente como motorista da linha Dores – Abaeté, com a Jardineira do Bizinho e, por isso, o barbeiro naquele dia era meu tio materno, José Milton da Silva “o Tatá”.
Numa manhã ensolarada chegou um freguês que deixou seu cavalo estacionado bem próximo à porta da barbearia. O Tatá começou o serviço e eu, ainda bem pequeno, matava minha curiosidade observando tudo que podia no animal. O Tatá percebeu e resolveu me colocar montado no cavalo, que a princípio eu aprovei de pronto. De pronto também foi o tombo e o choro.
Encostado do lado de fora da porta com o olhar comprido para meu Tio, ainda soluçando, Sussurrei baixinho, o que provocou risos nos dois espectadores:
_ Tatááá... Ocê agora tem de “ir lá na” farmácia comprar os remédios – viu !!!???


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Crônica II: Metodologia do Trabalho Científico


Metodologia do Trabalho Científico: acorda professor de MTC, pense e seja mais eficiente...

Dicas de um professor que tem orgulho e não aversão quando chamado de professor. Alguns absurdos educacionais ocorrem basicamente por inexperiência, nas mais diversas situações de ensino. Por exemplo, o Professor de Geografia que estabelece como um de seus objetivos educativos o decorar das capitais de todos os países do Mundo, cerca de 200.  O mesmo desvio ocorre quanto o Professor de História considera as datas mais importantes que os fatos.

Metodologia científica é uma disciplina de todos os cursos. Pretende dar início ao processo de estabelecimento de uma contribuição, nos moldes científicos, para os alunos da Graduação, e nos outros níveis de um aprofundamento nos estudos de uma determinada área do conhecimento.

As normas da ABNT, da mesma forma que os atlas (geográfico, histórico, anatômico, etnográfico, etc.) e outras publicações de mesmo cunho não são para serem sabidas ou decoradas, ou coisa parecida, servem para consulta. Saber que uma citação direta que transcreve literalmente uma informação ou idéia de outro autor deve fazer parte normal do texto quando não passa de três linhas, e que quando passa tudo muda, não é uma informação para ser cobrada ou decorada mas sim utilizada no devido momento: na redação do trabalho científico. Assim sendo, como explicar que na maioria dos casos dessa disciplina nas diversas instituições de ensino superior, questões normativas sejam cobradas em provas, que inclusive deixam de dependência muitos aprendentes?

Obviamente que não defendo a proibição da possibilidade de alguém ter dentro de seu cérebro todas as NBRs decoradas. Apenas penso que tornar isso obrigatório, condição  sine qua non para ser aprovado ou não na diciplina MTC, não tem o menor respaldo quando se parte de uma compreensão lógica e pautada no contexto da teoria educacional.

Então, será que já não está na hora de tentar mudar alguma coisa para evitar que tais absurdos continuem acontecendo? Quem vai assumir a responsabilidade? O MEC, os alunos, os professores, os pais de alunos? Partindo da premissa de que os maiores interessados devem compor a vanguarda do movimento que lhes interessa, os alunos e seus respectivos pais devem tomar a dianteira. Resta colocar a mão na massa, então, mãos à obra...   

domingo, 8 de novembro de 2015

A Morte

A Morte.

A morte tem lugar em todos os seres vivos. Dante não poderia  escrever a Divina Comédia sem a morte. Os filósofos sem a morte não teriam uma de suas questões fundamentais. Os existencialistas não teriam motivo para existir. Médicos seriam desnecessários:
            "não importa a doença que vou ter que lutar contra, afinal o fim não         existe, posso passar por alguns desconfortos, mas existem os analgésicos e a morfina...

Com dor não pode existir vida no sentido pleno! Essa coisa depende de alguns pressupostos básicos e entre eles com cerveja  a ausência de dor.
As formas de tentar entender, aceitar, superar o fato de que o homem seja um ser para a morte varia tanto quanto a morte se manifesta por todos os lugares, e como não poderia deixar de ser, por todos os tempos...

O indivíduo e a sociedade tratam de forma diferente a morte. Individualmente, por um lado, as pessoas querem ter a maior quantidade de primaveras e, por outro, a intensidade das sensações consideradas prazerosas. Claro que não podemos desconsiderar o prazer de ter uma vida sem sensações intensas, mas apenas corriqueiras e rotineiras.

Muitos artistas podem ser incluídos como optantes da opção por extremos sensitivos, e isso parece implicar no fato das suas reincidentes mortes precoces.
Beber ou não? Fumar ou não? Ou isso ou aquilo? (Cecília Meirelles) Na vida qual o custo benefício de nossas escolhas? Sem respostas pautadas em hipocrisias teríamos que considerar em que contextos elas estão presentes.

Por exemplo: num grupo de adolescentes todos buscando popularidade e sucesso no grupo e, principalmente com o relação ao  sexo oposto (ou não) desejado com sua característica falta de experiência e maturidade pessoal, não tem a menor chance de nadar contra a maré: vira um Maria vai com as outras, e jamais consideram o questionamento aqui considerado, que dificilmente passa pelas suas cabeças, salvo em situações em que possuam pais ou escolas que se preocupam em abrir-lhes os olhos, proporcionando a avaliação e análise de suas escolhas melhor orientadas.

Caso um deus lhe procurasse e dissesse que daria a você uma nova chance, uma nova oportunidade de escolha para o andamento de sua vida. Por exemplo você de novo com 20 anos:
                        "Calça nova de riscado \ Paletó de linho      branco, que até o             mês passado lá no campo inda era flor \ sob o meu chapéu quebrado \ um sorriso ingênuo e franco \ de um rapaz novo encantado \ com  vinte anos de amor... (Fagner)

Voltar e optar dessa vez por viver sem nenhum estímulo externo, artificial ou não. Apenas o que a natureza lhe proporcionou no seu nascimento: seu corpo, sua mente e, provavelmente seu espírito. Enfim, a opção por uma vida pautada no evitar tudo que signifique possíveis problemas futuros, principalmente relacionados à saude, à longevidade quantitativa do percurso na estrada da vida.
Estatisticamente seria interessante avaliar a incidência de mortes precoces e casos de longevidade. São comuns os exemplos apresentados pela mídia de pessoas que superaram o limite dos 100 anos. Rotina de vida regrada, pouca, diversificada e saudável alimentação, (sem drogas principalmente) atividade física e mais um monte de receitas consideradas fundamentais para uma maior longevidade...   
Pelo menos até agora 15 artistas morreram com 27 anos de idade: Alexandre Levy (o primeiro), Robert Johnson,Nat Jaffe, Alan "Blind Owl" Wilson, Brian Jones, Ron "Pigpen" McKernan, Pete Ham, Jimi Hendrix, Jimi Hendrix, Gary Thain, Jacob Miller, Janis Joplin, André Fredrik Pretorius, Kurt Cobain, Amy Winehouse.
(Janis Joplin)
Quando você analisa suas escolhas pessoais a maioria deles optou pelos estímulos sensoriais, na forma de variadas drogas, para beber, fumar, cheirar, injetar. Quantos não artistas (anônimos) poderiam ser incluídos nessa lista???Quantos desses mudariam suas vidas mudando as opções com o objetivo de passar dos 27? Nunca teremos uma resposta para essa pergunta. Mas cada um de nós pode respondê-la em certos momentos determinados de nossas vidas.
Enfim, não existe uma resposta social de consenso que dê conta da resposta individual. Nessa questão as opiniões da comunidade podem ser divulgadas de forma intensiva na mídia, porém jamais como imposição definitiva ao indivíduo, que tem sua própria vida em suas mãos. Nenhuma relação aqui com livre arbítrio, que faz parte do contexto religioso.

A morte é o horizonte do homem. Viver sob seu manto o tempo todo, tentando ludibriá-la por mais tempo possível, ou viver sem considerar sua existência, tanto faz. O instante pertence a cada um que respira, e o ar que vai colocar em seus pulmões tem que ser de acordo com sua vontade. Tanto faz morrer agora ou depois. Como Epicuro penso que o morto não poderá se manifestar quanto à sua própria morte, pelo simples fato das limitação de sua condição de morto.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Crônica I: Estou aproveitando minha vida?

Explicação inicial - O título que foi escolhido para essa nova modalidade de texto do blog poderia ser outro com certeza. Talvez “Reflexões diárias”; continuar com “Prosopopeia” ou “Retomando o papo”; “Diário” ou coisa parecida; não estou preocupado com rigores relacionados com gêneros literários. Posso me regalar com essa liberdade. Talvez seja isso uma forma de aproveitar a mina vida.   

Crônica I: Estou aproveitando minha vida?


Limbo – onde os sem inspiração e motivo para escrever se escondem (no meu caso específico aqui mais ou menos o tempo de geração de um ser humano – desde setembro do ano passado). Afinal, por que escrever? Existe isso – necessidade de escrever? Caso exista deve ser alguma coisa do tipo freudiano. Escrever é também uma forma de aproveitar a vida? Afinal o que é aproveitar a vida? O sensu comum costuma fazer-se essa pergunta. As respostas quase sempre se traduzem numa lista de situações agradáveis e felizes, sendo muito complicada a possibilidade de uma fórmula geral e consensual, ou até mesmo de cunho filosófica. Não podemos evidentemente desconsiderar a contribuição de diversas filosofias, a sofística e o existencialismo, por exemplo. No entanto, as respostas do sensu comum costumam ser do tipo: “viver sem ter que se preocupar com dinheiro; ter um bom emprego; casa própria; carro; encontrar seu grande amor; ser respeitado na comunidade da qual faz parte; ser moralmente correto; ocupar-se apenas com a própria vida; acreditar em uma força maior, ter a certeza da presença dessa força nos vários momentos da vida; ter tempo livre para escolher o que fazer sem ter que prestar contas a ninguém; satisfazer suas vontades pessoais ligadas a todas as facetas da vida (arte, cultura, ciência, esporte, filosofia, andar de bicicleta, nadar, amar, beijar, fazer amor, viajar, praia, estar com amigos e familiares, ter um filho, escrever um livro, plantar mais de uma árvore, pescar, jogar truco, pegar um porre, cantar e tocar um instrumento, comer cardápios variados, beber bons vinhos, trabalhar a terra; estar atualizado com a mídia e redes sociais; enfim, uma lista interminável na medida em que cada um coloque suas preferencias: que tal você estabelecer sua própria lista e caso não possa realizar algumas delas, se preocupar em planejar uma futura realização delas)”. Aqui podemos considerar a distinção entre felicidade e momentos felizes? Como seria uma resposta que tomasse por base o conceito filosófico de felicidade?


Quais seriam as respostas enquanto o oposto das anteriores?  Costumam dizer que alguns gostam dos olhos e outros da remela. Pode ser a satisfação pessoal de alguém na sua compreensão do que seja aproveitar a vida esse oposto? Aos 21 anos alguém que resolve entrar atirando em uma igreja onde as pessoas estão rezando, procurando matar o maior número possível de fiéis - que escolha é essa afinal. Tantas outras opções quando se tem juventude, saúde, etc., mas a escolha é aquela. Quais as recompensas para tal ato? Morte, cadeia, repúdio humano, ódio, vingança? Que escolha é essa? Promover-se pessoalmente com a desgraça dos outros... Que opção é essa?  Optar por uma vida imoral vale a pena? Que necessidade é essa de cuidar da vida dos outros? Penso que na maior parte dos casos (é certo de que outros motivos podem ser apontados) trata-se de uma forma de autopromoção. Ao desmerecer o outro, ao mostrar para todo mundo o que o outro tem de pior, o mexeriqueiro se mostra superior e sem tais vícios, massageando seu próprio ego.  


O que determina nossas escolhas? Oportunidades? Trabalho duro voltado para realização dos sonhos pessoais? Imposição da vida vivida? Gênio ruim? Falta de educação e orientação para a vida? Lavagem cerebral? Acredito que seja tudo isso e mais um monte de motivos, nos quais (com base nos valores humanistas e humanitários) infelizmente a opção é pelo mau e mal em detrimento do bem e bom... Na verdade, uma questão de valores.


E eu? Enquadro-me no quê? Estou fazendo as escolhas certas? Estou aproveitando minha vida? Estou em harmonia com uma força transcendente (Deus), e da mesma forma com os demais seres humanos e com a Natureza? Avaliemos... Ainda pode estar em tempo de mudar algumas coisas em nossas vidas... Com certeza chegará um tempo em que isso não será mais possível.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Prosopopéia XV



“A mulher é o alimento corporal o mais elevado.” (Novalis).

Pensamento ruim este! Por que imaginar situações que nos fazem sofrer? Amor a distância (AAD) perturba, principalmente quando impera (in) certo ciúme.  “Perdoa-me por me traíres.” Declaração de culpa: minha culpa, tão somente minha culpa! Por que a posse é tão importante? Que tipo de prazer é esse? Por que é difícil dividir? Na vida o dividir-nos entre os nossos, nem sempre é prazeroso e satisfatório para ambas as partes. Viajar, passear é melhor que trabalhar? Gostar mais de trabalho que de passeio é uma inversão de valores? Como saber? Difícil dizer o que vale o que os outros sentem. Por exemplo: “o que é belo é o homem dominando os traços femininos que estão nele, a mulher os traços masculinos” (Crítias). Há quem pense e aja justamente na contramão dessa máxima, e que cada um saiba de si, e de ninguém mais nessa questão. Mais condizente dizer algo que a nós se refere. Mesmo neste caso não é tarefa fácil. Expressar sentimentos e situações de nossas vidas de forma a realizar essa avaliação com alguma segurança de (in) certa certeza é proposta difícil de ser colocada em prática. “Falar não é ver. ‘O que de fato alguém viu, como é que pode exprimi-lo pela linguagem? ’” (Górgias). E de forma ainda mais contundente: “se fosse possível por meio das palavras dar a verdade dos fatos – pura e evidente –aos ouvidos, o juízo seria sem dificuldades...” (Górgias). Ou tudo isso não passa de uma grande bobagem, já que hoje em toda parte estão aí as redes sociais? Que linguagem é essa das redes sociais que mescla palavra, imagem, movimento, circulação e comunicação? Consegue negar essa máxima de Górgias? Mudou o status do ver? As redes sociais seriam uma reencarnação da Psicagogia, ou seja, “da arte de levar a alma, pela persuasão, até onde se quiser levar.” (Górgias) Banalizado está o instante vivido? Será isso uma forma de indecência?
Como funciona a indecência? Relaciona-se com o quê? Trair a pessoa amada é indecência? Ou não é possível amar e trair ao mesmo tempo? No amor não cabe o desamor? Esse não tem a menor chance de existir? Para existir desamor é preciso que exista antes o amor, já que o des esvazia algo que já existe; e na medida em que existindo amor não é possível o seu contrário, a única conclusão a que se pode chegar é que desamor é algo que só existiu em ideia, nunca realmente. O sexo que busca o prazer é indecência? A nudez é indecência? “Toda nudez será castigada.”!? Será por aí, ou responder sim para essas perguntas, ou mesmo tocar no assunto, é que é indecência?  Podemos pensar o mesmo em relação ao Ser e o não-Ser? “Se o ser é, o não ser é o não ser” - “De modo que as coisas não mais são do que não são.” (Górgias) Por que as formas básicas de se dar valor às coisas sempre geram divergências de opinião? Por que afinal uns gostam dos olhos e outros da remela e, talvez, de forma mais abrangente: que valores a maioria (ou valor é algo exclusivamente pessoal e intransferível?) considera indecência? Dá para concordar com ela? Precisamos da indecência? Para quê? Para que o nomos possa se sobrepor ao natural (Physis)? A lei é mais forte que a natureza e pode domá-la (Crítias), ou será o contrário (Hípias)? A indecência impede o prazer, ou o prazer deve suprimir a indecência? A lei não deveria justificar o prazer já que “a alma é essencialmente poder de sentir” (Crítias)?
Por que existe o medo da perda? Mesmo que as situações vividas indiquem paz, harmonia e prazer na relação, tal dúvida insiste. Por quê? Na balança dois valores:
a) viver a relação sem considerar a dúvida “dominando a sensação pelo pensamento” (Crítias)
b) viver os desdobramentos da dúvida sentindo a sensação sem considerar o pensamento.
Possível viver os dois alternadamente? Bem provável, mas vale a pena? Quem duvida desconfia! Desconfiar leva a vigília. Não acreditar em tudo que ouve da primeira vez procurando contradições no dito; vigiar onde o olhar se fixa, avaliando as reações que o fixado gera. Os olhos fixam-se no outro, gerando reações suspeitas de traição. Como seria aqui o tempo como momento oportuno do Helenismo? “Sentir o tempo como ocasiões favoráveis para a ação que vem a propósito, e não senti-lo como instantes iguais a qualquer outro”. Quais as condições favoráveis de agora? Qual a opção mais prazerosa? Vamos nessa... de qualquer forma ou não? Avaliando se a escolha é ou não justa ou nem pensar e nem se preocupar com isso? Justa com quem e em relação ao quê, afinal?

Então, para que imaginar que estão acontecendo situações que nos fazem sofrer? Ou será que elas são na verdade uma forma de prazer? Pode existir prazer na dor? Caso seja uma dor psicológica, passageira e restrita à imaginação, isso somado com a certeza de que o desprazer imaginado jamais se realizará, pode isso ser um prazer? Imaginar situações na relação que uma vez acontecendo nos magoe, e sabendo que não vão acontecer pode tornar os futuros encontros dos casais mais calientes? Masoquismo estético (Kierkegaard)?